Inspirado por fatos ocorridos ultimamente e por uma música do Audioslave, cujo nome é “Cochise”.
Existe uma linha tênue entre o desabafo e o desaforo. Ambos possuem a mesma finalidade, mas as causas e os sentimentos que os movem são completamente diferentes. Enquanto o primeiro é um pedido de ajuda declarado, o segundo é um grito de socorro abafado. Explica-se.
Quando uma pessoa procura alguém para conversar, o faz com o intuito de retirar o “encosto” que possui de dentro de si, ou seja, jogar para fora todas as lamúrias, como se pudesse, ao menos temporariamente, fugir delas e observá-las como um terceiro imparcial, assim como o enxadrista que analisa uma partida de xadrez de outros dois jogadores que não ele. Como já dito em outro texto, encarar o problema por um prisma externo é mais cômodo e racional, ajudando em sua solução. Portanto, ao desabafar, o indivíduo retira de si o problema, julga-o e depois o traz de volta para extrair a melhor experiência possível em sua resolução.
Já o desaforado é aquele cujos problemas o vêm consumido paulatinamente. É triste ver pessoas que vivem dando desaforos a esmo, sem alvo qualquer, qual metralhadora em efeito mangueira. O maldoso, grosso, mal-educado e, por vezes, “mal-comida”, está na verdade gritando por socorro. O que não significa, contudo, que tenhamos que ajudar tal pessoa. E também não implica dizer que todo desaforo é um grito de alerta; muitos o fazem por puro sadismo. Mas deve-se analisar a “patada”, o desaforo, com cautela, sob pena de cometermos injustiças com quem, em verdade, apenas não soube se controlar.
O difícil, todavia, é agüentar ambas as situações. Auxílio nem sempre é fácil de dar. Na primeira hipótese, o ombro amigo, não dá muito trabalho, apenas tempo e paciência. Já a outra requer uma altíssima dose de tolerância, aliada a companheirismo, sem olvidar da paciência. Nem sempre é possível. Dos testes que podem existir pra qualquer relacionamento, lidar com o desaforo é um de nível difícil.
Nem sempre as pessoas são bem-sucedidas no teste e acabam podando o rosal das amizades. A culpa, no entanto, não é da parte que não soube lidar; muito menos da pessoa que possui um caos dentro de si e também não soube se controlar. Muitas vezes não há culpados. A própria busca incessante de bodes expiatórios é uma grande perda de tempo, porque em relacionamentos não existem culpados, existem divergências e incompatibilidades.
Se há uma intolerância em determinado comportamento, existe, por fim, uma incompatibilidade insanável, que ocasionará ao final na perda da relação. Se a rusga gerada pelo desaforo é superada, a relação arraiga-se cada vez mais, tornando-se inabalável.
Se se perde uma amizade por um desaforo, ambas as partes devem repensar suas atitudes: a desaforada deve cuidar do controle emocional e saber pedir ajuda; o intolerante deve aprender a ouvir os gritos da alma e ser menos egoísta.
Portanto, se der para “agüentar o tranco” – “Go on and save yourself, and take it on me”.
No entanto, se a incompatibilidade é insolúvel: “Então não me conte seus problemaaaas...”
terça-feira, 26 de agosto de 2008
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