sexta-feira, 20 de junho de 2008

Shhhh!

Certa vez eu li duas idéias que achei muito interessante e vou utilizá-las para tecer alguns comentários sobre “a verdade”.

Uma delas foi de Douglas Adams, autor do Guia do Mochileiro das Galáxias – Restaurante no fim do Universo, que dizia:

“O povo Belcerebon causava um grande ressentimento e insegurança entre as raças vizinhas por ser uma das civilizações mais desenvolvidas, iluminadas, e acima de tudo uma das mais quietas da Galáxia. Como punição para tal comportamento, que foi considerado arrogante e provocativo, um Tribunal Galáctico impôs a eles o mais cruel dentre os males sociais, a telepatia.”

O outro comentário eu não sei quem é o autor, vi num subnick de msn, dizia:

“Quando você mente ou omite você viola o direito de outra pessoa conhecer a verdade”

Inicialmente, gostaria de dizer que não concordo com este último comentário. Na realidade, creio que saber a hora de falar a verdade, a de mentir e a de omitir é uma arte que a todos deveria ser ensinada, pois muitos conflitos sociais seriam evitados. O que ocorre é que as pessoas não são iniciadas desta arte.

Imagine-se uma sociedade em que todos sabem o que todo mundo pensa, assim como o exemplo citado do povo de Belcerebron? A conseqüência no próprio livro foi desastrosa. De acordo com o autor, as pessoas gritavam o tempo inteiro sobre coisas idiotas para não ter que escutar a incessante verdade. Então, falar a verdade o tempo inteiro não é algo saudável, eu diria.

Não acredito também que as pessoas têm o direito de saber a verdade sobre tudo. Não estou fazendo apologia ao engodo, mas há situações em que é muito melhor dizer “Não deu certo” que um “você ficou gorda” ou “você prefere o futebol que a mim”. Dói menos pra quem ouve e pra quem diz.

As pessoas só devem ter o direito de ouvir a verdade quando sabê-la for, de algum modo, útil para elas. Aferir esta utilidade é que são elas...
1 – Muitas vezes as pessoas não querem escutar a verdade, ainda que seja a pergunta direta. Exemplo: Todo mundo dá bom dia ao vizinho, embora você queira matá-lo pelo barulho do dia anterior.
2 – Outras vezes dizer a verdade só vai magoar. Concordo que às vezes a verdade é dura e tem que ser dita, mas tudo tem hora. Dizer a verdade quando alguém está em crise e impossibilitada momentaneamente de sair dela é puro sadismo.
3 – Por vezes a pergunta é pura mendicância afetiva e, em que pese possa não ser mentira o que se diga, é tão artificial e não espontâneo que parece lorota. Exemplo: “Eu me sinto tão feia e rejeitada, eu sou bonita?” “É claro que é....tsc tsc”

Não creio que seja condenável a pessoa que diz a verdade espontaneamente, bruscamente, sem intenção de magoar. Execrável é o mau uso da verdade. Muitas vezes as pessoas a utilizam por pura maldade, quando omitir ou até mentir é melhor.

Defendo o poder da omissão; o poder do não dizer. A verdade só deve ser solta para o mundo quando estritamente necessária. Invertamos a ordem, ao invés de “a verdade os libertará” pensemos “eu libertarei a verdade”.

E quando libertá-la? Quando sua liberdade trouxer efeitos práticos satisfatórios. Quando maquiá-la através de mentiras? Somente e, digo, somente, quando a pessoa quiser ouvir a mentira. E quando omiti-la? Nos demais casos.

A pessoa que age assim é extremamente mais satisfeita consigo mesma. Existe uma lenda que todos a conhecem, talvez de outra maneira, que é uma divindade hindu chamada Ganesha. Ganesha, se não me engano, é um elefante e, como todo bom elefante possui incomensuráveis orelhas assim como as minhas. E uma boca pequena para o seu enorme tamanho de paquiderme. Por quê? Simplesmente porque seria muito mais interessante para as pessoas se elas falassem menos e prestassem mais atenção ao seu redor. Lembremos do exemplo do povo de Belcerebron, que era muito feliz e iluminado.

Na linha de Lao-Tsé, empurrar ou puxar com as mãos um carro em movimento é inútil; entrar nele te leva a algum lugar. O mundo tem seu fluxo; soltar a verdade quando ela é exigida do mundo é manter o carro em movimento. Liberá-la ou escondê-la no momento em que ela é exigida é como fazer morrer o carro.

Ouçam o que o mundo quer saber que saberá você também o que quer e que estas insuportáveis e desnecessárias vozes ocultam.

2 comentários:

Talita disse...

A segunda frase parece muito com uma do caçador de pipas(Quando você mente está roubando de alguém o direito de saber a verdade), que esteve no meu subnick, então.. nem preciso comentar né?! :)
Cada um com sua capacidade de aceitação da realidade, eu prefiro a verdade, SEMPRE! E na minha visão o autor não estava se referir a verdades sobre coisas aparentemente "superficiais" mas sim sobre coisas que efetivamente mudariam a vida de alguém - vide livro.
Beijãoo

Aldo Rodrigues disse...

Ahh verdades são assim mesmo. Um exemplo:

Quer aprender a voar??? É tão fácil e, ao mesmo tempo, uma coisa impensada, pela humanidade, de se fazer...

Shhhh! Eles não podem saber da verdade!!!

huahuahuahua