terça-feira, 15 de abril de 2008

Auto-boicote

“Quem busca o que não quer, não tem nem o que busca, nem o que quer”

Eu não sei ao certo o que faz as pessoas falharem. Há muito que penso em falar sobre falha no blog e, como acho este tema interessante. Acho que este vem a calhar depois de passar mais de um mês sem nada “postar”.

Pois bem. Volto ao tema: falha. Uma das razões das falhas, a razão interna, eu denominarei de auto-boicote. Explico melhor.

Depois de muito refletir, eu cheguei à conclusão que as pessoas tomam decisões que as põem em situações desconfortáveis, reiteradamente, simplesmente porque não concordam com a decisão tomada. Só não querem aceitar o fato de que não concordam. Parece contraditório, mas utilizar-me-ei de um exemplo para facilitar a compreensão.

Imaginemos uma pessoa que, por pressão dos pais, que são extremamente conservadores, escolhe o curso de medicina no momento da inscrição do vestibular. Todavia, seu sonho sempre foi cursar artes cênicas. Não há conexão entre a vontade real e a atitude tomada.

A não ser em raras hipóteses, nas quais a pessoa modifica sua personalidade e, por conseguinte, sua vontade, a tendência é que o candidato ao vestibular não seja aprovado. Ele na verdade não quer ser aprovado e, ainda que ele possua potencial para tanto, não conseguirá. E, o “desvio de finalidade” é o grande responsável pela falha.

“Querer é poder”, é o dito popular.

Concordo em parte com o “folklore”. Querer não é necessariamente poder. As coisas existem no mundo em potencialidade, isto é, tudo que está para existir, pré-existe. Isto não é novidade, vide Aristóteles. Para a potência vir a ser ato, há, contudo, necessidade de um elo, algo que una os dois mundos. Este fio intangível, a corda umbilical é o querer.

E, quando o querer é diverso do posto em prática, a potência nunca vira ato, pois não há ato volitivo que o crie neste mundo. Existe apenas em pensamento. É como se o fio, que deveria ser de cobre, nós, inconscientemente, utilizamos um cipó frouxo, uma corda que inexoravelmente será rompida. A potência real nunca deixa de ser potência, nem o ato falsamente professado como desejado torna-se fato, pois nunca foi querido, não é uma potência, portanto, inexistente. O que não “virá-a-ser” nunca será.

Eis o porquê do fracasso, o não perfazimento do objetivo. É o auto-boicote.

O estabelecimento real de metas é o mais interessante. É evidente que por incontáveis vezes as pessoas deixam de escolher o que querem por pressões ditas “externas”. Contudo, salvo algumas exceções, as pressões exógenas são em verdade decisões internas tomadas inconscientemente.

Voltando à pessoa que escolhe medicina como curso ao invés de artes cênicas, ela faz a escolha não-querida por ter em sua mente uma outra escolha querida, que, em sua ponderação de interesses, possui maior valor. O caminho escolhido é agradar aos pais. E é esse o maior problema das pessoas que são auto-boicotadas. Elas são boicotadas por si mesmo duplamente: a um, quando tomam um caminho que não querem, a dois, quando deixam os outros por ela escolherem, sendo esta inação o segundo boicote.

Muitas pessoas se dizem infelizes porque não alcançam as metas. A meta maior da pessoa no exemplo acima era se anular. Então, quando a pessoa se anula, se auto-boicota duplamente, ela é a única responsável pelo seu fracasso e atinge, em última análise, a sua meta. Cabe somente a ela consertar o erro.

Quando, porém, o fracasso é devido realmente a fatores que dela não dependam (por exemplo, o fato de ela não possuir condições econômicas de estudar), aí sim a situação é complicada.

Sobre a irresignação e o inconformismo, falarei da próxima vez. Chega!

Abraços.

3 comentários:

Alice Correia. disse...

hey.. estou com blog aogra =]

Anônimo disse...

Impressionante. Conseguiste definir e ilustrar muito bem a questão.

Luciana Pacheco disse...

Certa vez, em um grupo de terapia musical, uma psicóloga disse que quando enxergamos o nosso tamanho e o quê de fato somos capazes de fazer e de nos tornamos nos assustamos, pq somos mt,mt mais do que estamos acostumados, ou do que imaginamos. Diante do susto, nos auto-boicotamos, como uma forma, errada, de proteção. É mais cõmodo é máis fácil nos administrar "pequenos". Mas, como disse, conformismo é outra temática, embora ande de mãos atadas ao auto-boicote, assim como culpablizar fatores externos. E invariávelmente culpamos nossos pais,como já cantava Renato Russo. Será tão difícil assim ter o leme da própria vida nas mãos?